
27 de Setembro. Tinha estado a ver a "grande noite das eleições" até onde a pachorra aguentou. Deitei-me, cansado mas sem sono, e levantei-me pouco depois para beber um copo de água.
Passava pouco da meia noite quando fui à janela e deparei com uma cadeira de rodas no passeio. Uma cadeira de rodas sem ninguém sentado nela. Olhei para um e outro lado da rua e não havia ninguém à vista, nem sequer um carro a passar.
Achei estranho e senti-me um pouco incomodado, nem sei bem porquê. Talvez fosse para me livrar desse incómodo, dei por mim a tentar arranjar uma explicação para aquela cadeira de rodas sem passageiro.
Uma explicação prosaica, e talvez a mais provável, já que a cadeira estava perto da escola, onde tinham decorrido as eleições, seria a de que alguém tivesse levado um idoso a votar e, de seguida, após auxiliá-lo a entrar no carro ter-se-ia esquecido de colocar a cadeira no interior.
Mas teria mesmo sido assim? A cadeira continuava lá em baixo, imóvel, e eu ainda com pouco sono.
Imaginei então alguém, um idoso, já com algumas dificuldades de locomoção e com o coração fraco, mas que tinha teimado com o neto que iria votar, nem que fosse a última coisa que fazia na vida, desesperado com a possibilidade do Sócrates continuar a governar o país. Antes ainda de votar, tinha sucumbido a um ataque cardíaco.
Quase me pareceu ouvi-lo ainda a vociferar "... vamos correr com esse bandiiido!!!" e a apagar-se. Na confusão gerada pela chegada da ambulância, a cadeira tinha ficado para trás.
E a cadeira lá em baixo. E ninguém na rua. Quanto mais pensava nisto e olhava para cadeira vazia, mais provável me parecia esta explicação.